Conheça a avaliação das 20 metas do Plano Nacional da Educação
Em algumas delas, especialistas veem avanços. Em outras, criticam
a falta de ousadia. Investimentos em educação é a mais polêmica
A opinião entre quem pensa e discute educação é unânime: o Plano Nacional de Educação, que traça as metas para o setor nos próximos
dez anos, avançou em relação ao que estava em vigor. Porém, ficou aquém
do esperado. O motivo de maior descontentamento, sem dúvida, é com a
previsão de investimentos na área. As entidades educacionais esperavam
que a proposta de destinar 10% do PIB à área fosse mantida. Ou, pelo
menos, que os 7% determinados no texto fossem programados para menos
tempo: em quatro anos.
“O plano é um piso e representa o que foi possível de ser alcançado até
agora, mas precisamos avançar no Congresso Nacional. Calculamos que, com
base no custo-aluno qualidade, seria preciso destinar pelo menos 8% do
PIB à educação”, afirma Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional
pelo Direito à Educação. Ele explica que, dentro dos cálculos feitos
para o mínimo de investimentos necessários por aluno para que as escolas
ofereçam ensino de qualidade, 80% seriam destinados a pagamentos de
profissionais da educação.
Por isso, nesse aspecto, Cara acredita que o Ministério da Educação
acertou ao colocar a valorização dos docentes e profissionais das
escolas como prioridade no plano. Porém, ele também ressalta que a
colaboração efetiva entre municípios, Estados e União na divisão dos
investimentos deveria estar mais clara. “As estratégias sobre como se
dará o regime de colaboração estão frágeis. Era preciso apontar o que e
como cada um tem de colaborar para que as metas sejam cumpridas”,
destaca o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de
Educação, Carlos Sanches.
Cleyton Gontijo, professor do Departamento de Planejamento e
Administração da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília,
acredita que o plano possui metas possíveis de serem atingidas. “O
grande desafio, na minha avaliação, é cumprir a Emenda Constitucional
59, que tornou obrigatória a oferta de educação para estudantes de 4 a
17 anos até 2016. Mas me questiono se os recursos serão suficientes”,
pondera. Gontijo afirma que o plano também precisava definir metas
intermediárias para facilitar o acompanhamento delas.
Confira as 20 metas do PNE
Meta 1: Universalizar, até 2016, o atendimento
escolar da população de 4 e 5 anos, e ampliar, até 2020, a oferta de
educação infantil de forma a atender a 50% da população de até 3 anos.
O atendimento das crianças de 0 a 3 anos de idade voltou a ser meta
do plano de 2011 a 2020. Desde o projeto antigo, a ideia era que 50% das
crianças estivessem matriculadas em creches. A Conae queria que o prazo
dessa inclusão fosse mais curto: até 2012. Até 2016, deveria haver a
universalização do acesso. Para Haddad, mesmo repetida, essa é a meta
mais ousada do pacote. A universalização das matrículas para as crianças
de 4 aos 17 anos foi definida em 2009, pela Emenda Constitucional 59.
“Para nós, o financiamento dessa inclusão não está claro e não
conseguiremos cumpri-la sem dinheiro novo”, afirma Carlos Sanches.
Meta 2: Universalizar o ensino fundamental de nove anos para toda a população de 6 a 14 anos.
A partir deste ano, isso já deveria ter ocorrido.
O objetivo foi quase cumprido, mas o ministro Fernando Haddad admite ainda há crianças fora da escola.
“Há 2% dos estudantes brasileiros nessa faixa etária fora da escola. E
eles já foram alfabetizados, nós sabemos disso. Precisamos trazê-los de
volta, por isso a meta está aí”, afirmou. Para o presidente da Undime, a
inclusão dessa meta foi “um cuidado positivo do MEC”.
Meta 3: Universalizar, até 2016, o atendimento
escolar para toda a população de 15 a 17 anos e elevar, até 2020, a taxa
líquida de matrículas no ensino médio para 85%, nesta faixa etária.
Pela Emenda Constitucional 59, todos terão mesmo de ser incluídos.
Mas o desafio de garantir a permanência desses alunos na escola é
grande.
Em 2009, a taxa de escolarização líquida nessa faixa etária foi de apenas 50,9%.
Para tentar mantê-los estudando, o novo PNE aposta na diversificação
curricular, investimento na formação de professores, em equipamentos e
laboratórios e a criação de programas de correção de fluxo. Aumentar as
matrículas do ensino médio integrado ao profissionalizante e colocar o
Enem como seleção de vagas para o ensino superior também são estratégias
propostas. "É uma demanda estudantil, inclusive", justifica o ministro.
Meta 4: Universalizar, para a população de 4 a 17
anos, o atendimento escolar aos estudantes com deficiência, transtornos
globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação na rede
regular de ensino.
Sanches avalia que esse público foi bem representado no plano. A
proposta prevê o repasse de recursos suplementares para atender esses
estudantes, a implantação de salas de recursos multifuncionais para
atender necessidades específicas desses alunos e fomentar ações que
promovam a inclusão deles. “Um aluno não pode deixar de estudar porque
tem uma deficiência. Temos de adaptar uma escola para ele”, destaca o
ministro Haddad.
Meta 5: Alfabetizar todas as crianças até, no máximo, os oito anos.
Para isso, o plano define a estruturação do ensino fundamental de
nove anos com um ciclo de alfabetização de três anos. Orientação do
Conselho Nacional de Educação, a proposta é que os estudantes não sejam
reprovados durante esse ciclo. Eles ganhariam mais tempo para aprender a
ler e a escrever, mas nenhum poderia ser deixado para trás. O PNE
também prevê a aplicação de exames específicos para avaliar a
alfabetização dos alunos, o que já acontece com a Provinha Brasil,
aplicada aos alunos do 2º ano do ensino fundamental.
Meta 6: Oferecer educação em tempo integral em 50% das escolas públicas de educação básica.
Essa também não será uma meta simples de ser cumprida. Há 197 mil
escolas de educação básica no País. Não há um dado preciso sobre quantas
escolas funcionam em regime integral no País. Financiadas por recursos
do MEC, são apenas 10 mil escolas, que atendem quase R$ 3 milhões de
alunos. O ministro acredita que uma saída será buscar parcerias com
entidades como o Sesc e Senai para garantir nessas entidades atividades
no contraturno para os alunos.
Meta 7: Atingir as seguintes médias nacionais para o IDEB:
| IDEB |
2011 |
2013 |
2015 |
2017 |
2019 |
2021 |
| Anos iniciais do ensino fundamental |
4,6 |
4,9 |
5,2 |
5,5 |
5,7 |
6,0 |
| Anos finais do ensino fundamental |
3,9 |
4,4 |
4,7 |
5,0 |
5,2 |
5,5 |
| Ensino médio |
3,7 |
3,9 |
4,3 |
4,7 |
5,0 |
5,2 |
Fonte: Ministério da Educação
As metas de qualidade não faziam parte do plano anterior.
Por enquanto, o Brasil está cumprindo os objetivos previstos para cada etapa.
O repasse de mais recursos para os municípios com pior rendimento e que
tenham conselhos escolares ativos é bem visto pelas entidades ligadas
ao setor. A proposta agora é incluir uma avaliação de ciências na Prova
Brasil – exame de português e matemática feito por alunos da educação
básica cujos resultados compõem o Ideb – e incorporar o Enem ao sistema
de avaliação da educação básica. Não há prazos para isso e o ministro
admite que o tema terá de ser discutido com representantes de governos
estaduais e municipais, já que o Enem é não é feito por todos os alunos.
Meta 8: Elevar a escolaridade média da população de
18 a 24 anos de modo a alcançar mínimo de 12 anos de estudo para as
populações do campo, da região de menor escolaridade no país e dos 25%
mais pobres, bem como igualar a escolaridade média entre negros e não
negros, com vistas à redução da desigualdade educacional.
A proposta é aumentar a escolaridade dos trabalhadores brasileiros.
Dados analisados pela Síntese de Indicadores Sociais,
divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
mostram que somente 37,9% das pessoas com idade entre 18 e 24 anos
tinham 11 anos de estudo em 2009. E são poucos os que continuam
frequentando a escola: apenas 5,4%. A formação profissional e técnica é
considerada essencial para o cumprimento dessa meta.
Meta 9: Elevar a taxa de alfabetização da população com
15 anos ou mais para 93,5% até 2015 e erradicar, até 2020, o
analfabetismo absoluto e reduzir em 50% a taxa de analfabetismo
funcional.
Esse é um dos desafios antigos, que já fazia parte do plano decenal anterior.
O Brasil ainda possui 13,4 milhões de analfabetos com mais de 15 anos.
Fazer com que os brasileiros adultos não-alfabetizados voltem à escola,
para especialistas, é o grande empecilho para erradicar o
analfabetismo. Haddad acredita que, primeiro, outros áreas – saúde e
assistência social – precisarão se unir para encarar a tarefa. Além de
oferecer algum tipo de benefício para que o adulto se escolarize, o
ministro acredita que a falta de saúde visual impede muitos brasileiros
de continuar estudando. Na opinião da Undime, as estratégias para
erradicação do analfabetismo foram bem definidas.
Meta 10: Oferecer, no mínimo, 25% das matrículas de
educação de jovens e adultos na forma integrada à educação profissional
nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio.
Tornar a escola mais atraente e manter o aluno estudando até o fim é
um desafio também para cumprir a meta 8, que trata da escolarização dos
jovens adultos. O plano prevê a criação de uma ação nacional para
reestruturação e aquisição de equipamentos para as escolas públicas que
atuam com educação de jovens e adultos (o antigo supletivo).
Meta 11: Duplicar as matrículas da educação profissional técnica de nível médio, assegurando a qualidade da oferta.
A
proposta não atende exatamente o que propunha a Conae, que queria o
número de vagas da educação profissional triplicado até 2015. O
plano fala da duplicação durante a década. Haddad afirmou que as metas
foram calculadas revendo o investimento de 7% do PIB nos próximos dez
anos. Se os deputados decidirem ampliar as vagas na rede profissional,
terão de mexer na previsão de recursos. O tema promete voltar aos
debates no Congresso.
Meta 12: Elevar a taxa bruta de matrícula na
educação superior para 50% e a taxa líquida para 33% da população de 18 a
24 anos, assegurando a qualidade da oferta.
A definição de metas específicas para que as universidades adotem
medidas para aumentar a quantidade de formandos não haviam aparecido no
plano anterior, que contemplava somente metas de maior acesso às vagas. A
proposta é que as instituições públicas formem 90% de seus alunos (a
evasão em alguns cursos chega a 50%) e ofereçam um terço das vagas em
cursos noturnos. O PNE também quer mudanças nos currículos: 10% do total
de créditos curriculares devem ser destinado a programas e projetos de
extensão. As cotas raciais, aprovadas na Conae, foram excluídas do
plano.
Meta 13: Elevar a qualidade da educação superior
pela ampliação da atuação de mestres e doutores nas instituições de
educação superior para 75%, no mínimo, do corpo docente em efetivo
exercício, sendo, do total, 35% doutores.
O investimento na formação dos professores é considerado um avanço
pelos especialistas. Para eles, de fato, a qualidade de ensino oferecida
aos estudantes só melhora a partir do momento que os professores são
capacitados. Nessa meta, um item promete novos debates no Congresso: o
MEC propõe a substituição do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes
(Enade) aplicado aos calouros pelo Enem. Como a avaliação do ensino
médio é voluntária, não há definições sobre como essa substituição
poderia ocorrer.
Meta 14: Elevar gradualmente o número de matrículas
na pós-graduação stricto sensu de modo a atingir a titulação anual de 60
mil mestres e 25 mil doutores.
Os especialistas também apóiam a decisão de estimular a expansão da
pós-graduação. Hoje, cerca de 30 mil mestres e doutores são formados por
ano no País. Para isso, a expectativa é a de que o financiamento de
cursos seja ampliado pelo Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino
Superior (Fies).
Meta 15: Garantir, em regime de colaboração entre a
União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, que todos os
professores da educação básica possuam formação específica de nível
superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que
atuam.
O ministro da Educação disse que essa precisa ser a “década de valorização dos professores”.
Os especialistas concordam que esse deve ser um ponto central do plano e
elogiam a iniciativa de criar uma política nacional de formação e
valorização dos profissionais da educação em um ano. Porém, criticam a
falta de clareza sobre como será a parceria entre Estados, municípios e
União. “A maioria dos municípios consegue pagar o piso, mas não oferece
uma carreira atraente. Falta dinheiro. Precisaremos de 20% a mais de
profissionais em quatro anos e não temos como resolver”, diz o
presidente da Undime.
Meta 16: Formar 50% dos professores da educação
básica em nível de pós-graduação lato e stricto sensu, garantir a todos
formação continuada em sua área de atuação.
Gontijo considera a formação dos professores essencial para o
cumprimento das metas nos próximos anos, por isso defende a proposta.
Para ele, considerando o universo de docentes brasileiros, a ambição é
ousada. “É necessário qualificarmos melhor os professores para garantir
educação de qualidade, acho que as metas do Ideb passam por isso. Essa é
uma meta muito interessante, mas audaciosa”, afirma.
Meta 17: Valorizar o magistério público da educação
básica a fim de aproximar o rendimento médio do profissional do
magistério com mais de onze anos de escolaridade do rendimento médio dos
demais profissionais com escolaridade equivalente.
Os especialistas elogiaram a criação de um fórum que acompanhe essa
atualização dos salários. Mas se preocupam em quem pagará essa conta, já
que há municípios e Estados que alegam não ter adotado o piso salarial,
hoje em R$ 1.024, por falta de recursos. Haddad não descartou a
possibilidade de as mesas de negociação incluírem a participação do
governo federal para que a meta se consolide.
Meta 18: Assegurar, no prazo de dois anos, a
existência de planos de carreira para os profissionais do magistério em
todos os sistemas de ensino.
A
prova nacional de admissão de docentes para contratação de professores,
hoje já feita pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A meta é chegar a 90% de servidores
nomeados em cargos efetivos durante o plano.
Meta 19: Garantir, mediante lei específica aprovada
no âmbito dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, a nomeação
comissionada de diretores de escola vinculada a critérios técnicos de
mérito e desempenho e à participação da comunidade escolar.
Os gestores que não utilizarem critérios claros para a escolha de
diretores nas escolas públicas poderão ser punidos. A nomeação de
gestores escolares pelas secretarias de educação não é aprovada pelas
entidades e ainda ocorre em muitos municípios. O MEC sugere a criação de
uma prova nacional específica para diretores, que poderia ser utilizada
para ajudar a adoção de critérios técnicos e de mérito nessa tarefa.
Meta 20: Ampliar progressivamente o investimento
público em educação até atingir, no mínimo, o patamar de 7% do produto
interno bruto do país.
Essa é a meta que mais provoca discussões e preocupações entre os especialistas.
Durante a Conae, apontou-se a vontade de que esse percentual de
investimentos fosse atingido em 2011 e chegasse a 10% em 2014. Para
eles, os recursos definidos no PNE não serão suficientes. “Essa era a
parte que deveria ser a mais forte, mas inexplicavelmente é a mais
fraca. Em 2001 o parlamento propôs que esse (7% do PIB) fosse o gasto em
2010. Estamos prorrogando por mais dez anos a meta não alcançada”,
critica o consultor educacional Luiz Araújo. Daniel Cara acredita que é
preciso fortalecer também o papel do custo-aluno qualidade, que define
padrões mínimos de investimento por estudante. O tema promete ser muito
debatido no Congresso ainda.
http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/conheca+a+avaliacao+das+20+metas+do+plano+nacional+da+educacao/n1237877255719.html